Paraná

‘Dá para ver a tristeza e a saudade no olhar’, diz tio sobre menina de 4 anos que viu mãe ser morta pelo pai no Paraná

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Segundo especialista, mudança no comportamento, dificuldade de socialização e repetição de violência podem ser consequências para órfãos do feminicídio. Crianças órfãs após casos de feminicídios costumam ser encaminhadas para demais familiares como avós e tios
Elza Fiuza/Arquivo Agência Brasil
*Para preservar a identidade da criança, apenas as iniciais de seu nome foram citadas na reportagem
A história da pequena M. S.*, de quatro anos, foi completamente alterada no ano passado quando viu a mãe ser morta a tiros pelo próprio pai. Ela estava no local quando o crime aconteceu, em Reserva, nos Campos Gerais do Paraná.
Segundo o tio da criança, Carlos Speke, desde que presenciou o assassinato da mãe, M. tem tido as comportamentos mais “revoltados”, se assusta durante a noite e relembra com frequência do que viu.
“Quando ela viu a mãe dela morta, ela deitava em cima, abraçava, chamava pela mãe. Ela era uma menina muito calma, depois que aconteceu isso ela começa a bater o pé para a gente, começa a chorar. Sem contar que ela relembra o caso. Se tiver algum adulto conversando e tocar no assunto do que aconteceu, ela conta, pega a pessoa e leva para cada lugar da casa mostrando onde e como foi”, contou.
A mãe, Adriana Speke, foi morta em 6 de dezembro do ano passado, aos 28 anos. De acordo com a Polícia Militar, o ex-marido dela invadiu a casa e atirou contra a jovem e contra o pai dela, de 68 anos, que também morreu.
Pai e filha não resistiram aos ferimentos e morreram em casa
Foto Autorizada/Arquivo Pessoal
Após o crime, o autor dos disparos também tirou a própria vida. O irmão de Adriana conta que, desde o assassinato da mãe, a sobrinha parou de se referir ao homem como pai.
“Ela o chama ou de tio ou de monstro, fala que aquele monstro matou a mãe dela. Antes ela chamava ele de pai, depois que aconteceu isso, não chama mais”, explicou.
De acordo com a psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Maria Cristina Neiva de Carvalho, reações como a de M.S. são normais após um trauma e os danos da violência presenciada “ficam para a vida toda”.
“Presenciar um assassinato é uma situação emocionalmente forte, se você imaginar isso dentro do âmbito familiar, que teoricamente seria lugar de amor e resolução de conflitos. O impacto é muito grande na vida da criança. Ela perde uma pessoa de referência, fundamental para a vida dela. A criança está, sim, tendo seus direitos violados, ela é atingida também”, afirmou.
Ainda conforme a psicóloga, as manifestações da dor podem aparecer de diferentes formas em cada criança e variar de acordo com a idade.
Elas podem desenvolver problemas físicos, em especial na primeira infância, além de mudanças comportamentais.
“As consequências psicológicas podem desenvolver imediatamente todos os sintomas do estresse pós-traumático. A criança pode generalizar a falta de confiança para todas as pessoas e ter dificuldade de fazer amizade. Pode ficar introspectiva, tímida, ou fazer o oposto também. Pode acabar desenvolvendo uma reação ao mundo com toda aquela violência que ela recebeu. Como se fosse devolver”, explicou.
Veja, abaixo, que outros impactos o feminicídio pode ter nas crianças
No caso de M.S., as sessões com a psicóloga começaram no começo deste mês. Uma vez por semana, a criança vai à terapia.
Ela retornou para a escola e, segundo o tio, tem uma boa relação com outras crianças.
Mudança na rotina
Carlos também estava no dia do crime e chegou a levar um tiro. Recuperado, ele hoje ajuda a mãe a cuidar das crianças da irmã.
Segundo ele, a rotina de toda a família mudou depois do crime. Ele deixou o emprego e a casa que tinha em Ponta Grossa, na mesma região, e voltou para Reserva para ficar com a família.
Além de M.S., Michele também tinha uma filha ainda bebê, de sete meses.
A família tenta encontrar formas de dar apoio, amor e acolhimento às sobrinhas, que ficaram órfãs. Carlos contou que a saudade e as lembranças aparecem no dia a dia, em atitudes.
“Quando ela pergunta se a mãe vai voltar, a gente diz que a mãe virou uma estrelinha. À noite, ela olha para o céu e diz que está olhando para a mãe, que é a estrelinha. Ela não é de chorar. Pergunta se a mãe vai voltar, fala que sente falta. A gente percebe pelo olhar a tristeza e a saudade, nas atitudes. À noite ela até dorme bem, mas às vezes acorda perguntando sobre qualquer barulho, tem medo”, disse.
Sobre a bebê, Carlos contou que o primeiro mês foi o mais difícil. Segundo ele, ela chorava constantemente mesmo quando acolhida por outras pessoas da família, mas que , agora, está bem e “tranquila”.
Impactos para a criança
A psicóloga Maria Cristina Neiva de Carvalho explica que o feminicídio, especialmente quando praticado dentro de casa, fere um dos principais pontos para o desenvolvimento de uma criança: a família.
“A família para qualquer criança é a matriz de identidade, onde a gente desenvolve a noção de quem somos, de socialização, onde a gente aprende o que pode e o que não pode, de vínculo, onde a gente aprende como eles se estabelecem e de pertencimento, de proteção. Todas essas matrizes ficam muito abaladas. A criança pode se sentir sem valor, que ninguém pensou nela”, afirma.
Maria Cristina também citou a questão da violência transgeracional, isto é, a replicação do comportamento de uma geração para a outra. Segundo ela, ao ver o comportamento violento, a criança pode assimilar o padrão como o correto e, no futuro, repetir dentro de uma relação.
“Toda criança no ambiente familiar tem nas relações pessoais, dentro de casa, os modelos de como a gente enfrenta as situações, como a gente resolve conflitos, como a gente supera dificuldades. Quando ela vê um feminicídio, ela pode aprender e internalizar que essa é a uma forma de resolver as coisas”.
Além disso, a violência transgeracional também pode se evidenciar na normalização da violência, em especial por parte de mulheres. Ao verem isso acontecer dentro de casa, elas podem vir a se submeter ao mesmo ciclo no futuro.
Por isso, segundo a psicóloga, é fundamental que qualquer pessoa envolvida em um processo de violência contra a mulher, em especial a criança, tenha acompanhamento psicológico para que possa seguir a vida.
“Ela nunca vai deixar de lembrar, provavelmente, a menos que faça bloqueio – o que também não é bom-, mas ela vai ter formas de conviver com o que aconteceu de um jeito mais saudável para ela própria, para a vida”, enfatizou.
Feminicídio no Paraná
Desde 2015 o Código Penal prevê o feminicídio como qualificador do crime de homicídio. A lei considera que o crime se deu por razões ligadas à “condição do sexo feminino” quando, por exemplo, envolve violência doméstica e familiar; menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
No Paraná, entre janeiro e setembro de 2021, 49 mulheres morreram vítimas de feminicídio, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Durante todo o ano de 2020, 73 mulheres foram mortas pelo fato de serem mulheres.
Até a publicação desta reportagem, a Sesp não tinha um balanço final de 2021, nem os números registrados neste ano.
De acordo com as autoridades, mensurar o número de crianças que perdem a mãe para o feminicídio é um controle “difícil” pois, pela lei, esses órfãos não precisam ser necessariamente encaminhados para a Justiça. Entenda, mais abaixo, os procedimentos legais nestes casos.
Proteção judicial às crianças
De acordo com o procurador Francisco Zanicotti, da Vara da Infância do Ministério Público do Paraná (MP-PR), qualquer tipo de violência contra a mãe de uma criança é uma violência contra a própria criança.
Em alguns casos, quando notificados pela Polícia Militar ou pelo Conselho Tutelar, o MP-PR entra no caso e passa a acompanhar a situação da criança, como em casos de feminicídio.
Sem a mãe – e geralmente com o pai preso -, os órfãos costumam ser encaminhados para a chamada família extensa, como avós e tios, sem necessidade de judicialização do processo.
“Começa pela família extensa, que precisa ter o compromisso e garantir que vai manter a criação afastada do agressor. Depois, se não houver, procuramos uma família substituta por meio da adoção ou apadrinhamento afetivo. Em último caso, longe de ser o ideal mas necessário, é feito o acolhimento institucional”, explicou.
Apesar disso, o promotor também disse que as famílias extensas precisam em algum momento fazer um pedido do termo de guarda para que possam ter direitos como viajar com essas crianças.
No Paraná, o órgão não possui um núcleo específico voltado para crianças órfãs pelo feminicídio.
Segundo Francisco, a demanda não justifica o engessamento de uma área, mas nenhuma criança ou adolescente é afetado pois recebem atendimento de “uma equipe multidisciplinar preparada para lidar com pessoas do grupo em risco.
Ainda conforme o promotor, o foco deve ser o combate à violência contra a mulher desde o princípio, colocando fim ao ciclo.
“Todas essas violências impactam seriamente no desenvolvimento das crianças e adolescentes. Ainda há muito a ser feito, por isso a gente fala da intervenção precoce. Não pode deixar chegar em uma lesão corporal grave, feminicídio. Você vê um pai xingando uma mãe, então passou da hora de intervir”, frisou.
Veja mais notícias da região em g1 Campos Gerais e Sul.

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