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Família paranaense guarda quadro de Nossa Senhora trazido há 322 anos da Ucrânia: ‘Proteção de gerações que nos faz prostrar e rezar pela paz’

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Imagem de Nossa Senhora de Pochaev saiu do país europeu em lenço na cabeça de imigrante. Descendentes ucranianos que vivem em Curitiba recorrem à imagem para pedir o fim da guerra. Família de descendentes ucranianos que mora em Curitiba guarda imagem de santa de 322 anos
Giuliano Gomes/PR Press
Trezentos e vinte e dois anos separam a fabricação do quadro das preces feita à imagem de Nossa Senhora de Pochaev pelo fim da guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou em fevereiro deste ano.
O ícone, feito em 1.700 na Ucrânia, saiu da região de Ternopil escondido em um lenço usado na cabeça de uma imigrante. Desde então, o quadro passa de geração em geração em uma família de descendentes ucranianos que mora no Paraná.
Marta Marina Starepravo Padilha é umas das guardiãs da santa – que mede aproximadamente um palmo. Segundo ela, o quadro saiu do país quando vieram os primeiros descendentes da família dela ao Brasil.
“Veio o meu tataravô que já era um senhor de 60 anos, a esposa dele que tinha 55, e os filhos. Não podia ter manifestação religiosa por causa dos conflitos, então ela trouxe essa santa escondidinha no cabelo para conseguir passar na fronteira. Meu pai é falecido, mas tinha um cuidado, um zelo por essa peça que ficava na cabeceira da cama dele em um relicário. Somos hoje em 14 irmãos e mantemos a tradição do respeito e oração por ela”.
A família reza ao redor da imagem durante esses mais de 300 anos e acredita que a imagem seja milagrosa.
“Ela é uma representação de uma mãe, uma divindade, então a gente acredita nessa proteção, que ela é mediadora de conflitos, quer ver seus filhos bem e em paz. É uma proteção de gerações que nos faz prostrar pela paz hoje. Claro que os desígnios de Deus são infindáveis, às vezes algumas coisas precisam acontecer, infelizmente, mas que seja o menos traumático possível, que não se delongue”.
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Ícone, feito em 1.700 na Ucrânia, saiu da região de Ternopil escondido em lenço em cima da cabeça de uma mulher
Giuliano Gomes/PR Press
A mãe de Marta mora na Colônia Marcelino, que reúne descendentes de ucranianos e poloneses, e está localizada em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
Na colônia, há uma das maiores igrejas ucranianas do Brasil, com mais de 30 metros de altura e capacidade para aproximadamente 450 pessoas. O projeto da Paróquia Santíssima Trindade foi inspirado em igrejas da Ucrânia.
As missas são celebradas em ucraniano e apenas uma vez por mês é celebrada em português.
“Minha mãe até falou que vai doar essa Nossa Senhora para o museu da própria colônia. Lá tem uma igreja grande que é uma ‘réplica’ de uma igreja da Ucrânia. Mas, para nós, tem um significado muito forte, um simbolismo muito grande […] Imagina quantas histórias, quantas orações, quantos pedidos, quanto clamor, imagina quantas pessoas rezaram para essa Nossa Senhora, e nós também desde que ela veio para o Brasil”.
WEB EPISÓDIO: Conheça a igreja da Santíssima Trindade na Colônia Marcelino
Paróquia Santíssima Trindade, na Colônia Marcelino
Arquivo pessoal/Marta Marina Starepravo Padilha
A fé
Outro integrante da família é Domingos Miguel Starepravo, que é padre e diretor espiritual da Faculdade São Basílio Magno (FASBAM), em Curitiba.
Ele explica que o ícone de Nossa Senhora de Pochaev guardado pela família é considerado milagroso uma vez que os ajudou a alcançar inúmeras graças determinadas.
“É uma relíquia. Ao mesmo tempo, todos os quadros, ou melhor, ícones, tornam-se milagrosos pela quantidade de orações, de súplicas, de pedidos, de louvores, de ações de graças que se fazem diante dele. Foram centenas de horas de pessoas que rezaram ali, se ajoelharam, pediram proteção, choraram agradecendo por graças recebidas, enfim, não dá para negar a força da fé, que muda, sim, destinos”.
Marta comenta que ela e os irmãos tentam repassar a cultura do povo ucraniano e o hábito de rezar para os filhos, deixando assim a tradição viva.
“Os irmãos que são casados têm na sua casa seus ícones, então essa questão da religiosidade é cultivada. Os meus filhos, pensa, já é uma outra geração, e rezam em ucraniano e eu procuro passar isso para eles para dar sequência. Eu acredito que a espiritualidade é muito importante, ainda mais nos dias de hoje tão sombrios”.
Descendentes ucranianos em Curitiba; família Starepravo
Arquivo pessoal
Quadro quase foi perdido
Domingos Miguel conta que uma vez quase que a família ficou sem o quadro. O ícone ficava com avô dele. Até que na Colônia Marcelino estavam construindo uma igreja e, em uma noite, a cúpula desabou e a comunidade precisava reconstruir, mas não tinha dinheiro.
“Meu avô, então, colocou esse quadrinho em um leilão, numa festa. Meu pai preocupado com o quadro que é uma relíquia tão antiga da família, juntou todo o dinheiro que a gente tinha guardado e foi na festa. Por sorte, esse quadro foi posto a leilão por último. O pai pedia a Deus que conseguisse comprar, então já no final, quando começou a diminuir os pretendentes ainda tinham dois que estavam querendo muito aquele quadro, e aí o pai ergueu o preço e um desistiu e o outro ficou. Depois, no final, o pai falou ‘vou dar tudo o que eu tenho, eu dou tanto [valor] por esse quadro’, e aquele que queria comprar a peça viu que não tinha tudo isso de dinheiro, aí o avô, que era o leiloeiro, já disse ‘dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendido'”.
O padre ainda conta que, em seguida, o pai dele pegou o quadro e saiu correndo para casa para se alimentar pois passou o dia sem comer nada, apenas para resgatar a relíquia tão importante para a família.
“Que bom que ele lutou por ela [Nossa Senhora]. Então, sempre esse quadrinho, esse ícone, esteve conosco. E meu irmão, o pai da Marta, que já é falecido, sempre deixava a imagem dentro de um quarto onde tem uma lamparina que queima dia e noite. Hoje em dia, os familiares mantêm a tradição”.
Família paranaense guarda ícone de Nossa Senhora que veio da Ucrânia há 322 anos
Reprodução/RPC
Recentemente, Domingos Miguel fez um conserto no quadro, mas sem alterar nenhuma característica.
“Mexi só um pouquinho porque tinha um quebrado, não sei se é gesso ou outra coisa, eu arrumei e pintei. Não se pode mexer nela, desconfigurar, porque é uma obra histórica, então só fiz para preservá-la mesmo”.
Segundo ele, o ícone já foi levado novamente para a casa da mãe de Marta, a dona Helena Starepravo. Depois, ele ficará na antiga igreja que é tombada como patrimônio histórico de São José dos Pinhais.
Recentemente, Domingos Miguel fez um conserto no quadro, mas sem alterar nenhuma característica
Giuliano Gomes/PR Press
Não perder a esperança
A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada na madrugada de 24 de fevereiro, causou mortes e destruição em um cenário de guerra. Trata-se do maior ataque militar de um país contra outro na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
“Um dos meus irmãos, o padre Estefano, que faleceu por causa da Covid no ano passado em Roma, estava sempre por lá [na Ucrânia] e tinha relacionamento mais próximo com alguns parentes […] No primeiro dia da guerra a gente chorava como se a gente tivesse passando por aquilo, imagina, a gente nem tem dimensão do que eles passam, mas a sensação acho que é interna de escutar os antigos falarem da guerra, do quanto é difícil”, comenta Marta.
Ela afirma ainda que lamenta profundamente ver o povo ucraniano sofrendo com mais uma guerra e, principalmente, saber que inocentes estão perdendo bens e a vida no conflito.
“Idosos vão morrer, pense, um povo sofrido que, no finalzinho da vida, passa por isso novamente? É uma estupidez tão grande a guerra com armamentos porque não é isso que vai resolver. As pessoas vão lutar, morrer, por uma guerra que nem é delas. É triste, ainda no frio, tem toda uma questão de clima. A gente só pode rezar por eles e não perder a esperança. Acho que o povo ucraniano tem isso, nunca perder a esperança. As coisas vão melhorar. Слава Україні! [Glória à Ucrânia!]”.
Domingos Miguel relata se sentir impotente frente a todo acontecimento que ocorre no país que tanto ama, mas que não desanima acreditando que em breve tudo vai passar.
“É uma coisa que não tem como explicar, é de um lado uma sensação de perda e de se sentir impotente, de não poder fazer nada, mas de outro lado a fé ela é maior. A gente sabe, porque ouve desde criança, que o povo é um povo de muita fé e principalmente em Nossa Senhora, porque na cultura ucraniana ela antigamente era matriarcal, a mãe, uma avó, uma bisavó que comandava com a família, porque os homens iam defender a Ucrânia. Então, quem comandava tudo era a mãe. Imagina então quão poderosa é a mãe de Deus? Tenhamos fé que o mal vai passar logo”, conclui ele.
Descendentes ucranianos que vivem em Curitiba recorrem à imagem pedindo pelo fim da guerra
Reprodução/RPC
A invasão
A Rússia iniciou, no fim de fevereiro, uma ampla operação militar para invadir a Ucrânia. Há imagens de explosões e movimentações de tanques em diferentes cidades ucranianas. Putin disse às forças ucranianas que deponham as armas e voltem para casa.
Putin atacou o leste da Ucrânia com misseis e explosões. Em resposta, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que distribuiu armas aos ucranianos.
Fortes explosões foram ouvidas no centro de Kiev e também em outras cidades ucranianas.
Imagens da guerra na Ucrânia
Reuters; AFP
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, acusou Putin de iniciar uma “invasão em grande escala” contra seu país. “Cidades ucranianas pacíficas estão sob ataque”, tuitou Kuleba.
Países contrários à invasão, como Estados Unidos, França e Inglaterra, anunciaram sanções para sufocar a economia russa, numa tentativa de desestimular os ataques.
Moradores tentam deixar a Ucrânia e relatam clima assustador.
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