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Integrantes da comunidade ucraniana em SP dizem que estão sem contato com parentes após invasão russa

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Tensões entre os dois países levaram a uma ampla invasão do território ucraniano pelas forças russas na madrugada desta quinta (24). Cônsul ucraniano em SP afirma que há problemas de comunicação no país e que sistemas de comunicação estão sendo hackeados. Comunidade ucraniana em SP diz que está sem contato com parentes na Ucrânia
Integrantes da comunidade ucraniana que vivem em São Paulo disseram nesta quinta-feira (24) que estão sem contato com parentes e amigos na Ucrânia, após a invasão de tropas russas ao país durante a última madrugada. Segundo o consulado, cerca de 10 mil ucranianos ou descendentes vivem no estado.
O cônsul ucraniano na capital paulista, Jorge Rybka, afirmou que ficou surpreso com a ação militar russa na e está muito preocupado com os parentes que estão próximo da capital ucraniana, Kiev.
“Tenho parentes sim, ao Sul de Kiev. Não há contato. Temos problemas com comunicação, estão sendo hackeados os sistemas e estamos com dificuldades”, disse Rybka.
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A tradutora Snizhana Maznova é casada com um brasileiro e vive no Brasil há 15 anos. Ela montou uma escola de línguas eslavas e um restaurante de comidas russas no bairro da Aclimação, no Centro de São Paulo.
Maznova chora e diz que está muito abalada com o que está acontecendo na Ucrânia, já que parte da família dela vive no país.
“Eu não entendo como os outros países deixaram isso acontecer. Porque nós não vivemos na época medieval, quando eu quero conquistar um território e pego o meu cavalo e vou e conquisto. Hoje em dia tem bastante organizações internacionais que cuidam uns dos outros. E por isso, a confusão é… eu não consigo falar…”, afirmou emocionada.
A tradutora ucraniana Snizhana Maznova, que vive no Brasil há 15 anos, chora ao falar do conflito no país onde nasceu.
Reprodução/TV Globo
Outro ucraniano que mora em São Paulo é o padre Estéfano Wonsik, bisneto de ucranianos. Ele atualmente é pároco em uma Igreja Católica Ortodoxa russa na Vila Prudente, na Zona Leste de São Paulo, e diz que está preocupado com os amigos que estão na Ucrânia, onde morou por quatro anos.
“Quando começou essa tensão, eu estava lá. Deixei muitos amigos e hoje recebi uma mensagem de um pai que disse: ‘padre, quando o senhor esteve aqui meu filho era pequeno. Hoje ele está lá na zona de guerra e não sei se ele volta’. Então, isso deixa a gente com o coração apertado”, disse o padre Estéfano.
Os ucranianos têm presença forte em São Paulo, especialmente na região do ABC paulista, na Grande SP. Na cidade de São Caetano do Sul tem até rua em homenagem aos ucranianos, além de igrejas onde os ucranianos e seus descendentes nascidos no Brasil se reúnem com frequência.
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O professor Danilo Zajac faz parte de um grupo de música e dança folclóricas ucranianas no ABC Paulista e diz que vê com preocupação a escalada de conflitos no país onde a família dele viveu.
“A gente entende que a Ucrânia tem a sua história, tem suas tradições e cultura própria. E esse tipo de movimentação é muito agressivo para nós que tentamos defender essa cultura com muito amor e carinho”, afirmou Zajac.
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Comunidade ucraniana no Brasil
Ucranianos e russos descendente de um mesmo grupo étnico: os eslavos. Eles compartilham algumas semelhanças culturais e religiosas, como a fé católica, as comidas e as línguas.
Segundo a embaixada ucraniana no Brasil, cerca de 500 mil descendentes de ucranianos vivem no país. Eles estão concentrados principalmente em comunidades do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Mapa mostra o número de ucranianos e seus descendentes vivendo no Brasil atualmente.
Reprodução/TV Globo
O Consulado Ucraniano em São Paulo fica no bairro de Santo Amaro, na Zona Sul da capital. O atendimento por enquanto é só online. A embaixada brasileira na Ucrânia pediu que os brasileiros no país deixassem o país nesta quinta-feira (24).
Tensão entre Ucrânia e Rússia
As tensões entre a Rússia e a Ucrânia alcançaram níveis sem precedentes, culminando em uma ampla invasão do território ucraniano pelas forças militares russas na madrugada desta quinta-feira (24).
Os temores de uma guerra entre esses dois países vinham sendo alimentados pela forte presença de soldados russos posicionados ao longo da fronteira ucraniana e por uma série de demandas apresentadas por Moscou em meados de dezembro.
A Rússia está preocupada com ascensão do nacionalismo na Ucrânia
Getty Images
Entre elas, o compromisso de que a Ucrânia nunca se junte à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), limitações às tropas e armas que podem ser implantadas nos países que aderiram a essa aliança após a queda da União Soviética (URSS) e a retirada da infraestrutura militar instalada nos estados do Leste Europeu após 1997.
“Eles realmente querem retornar às fronteiras existentes na Europa Oriental durante a Guerra Fria”, afirmou no fim de janeiro George Friedman, fundador da empresa internacional de previsão e análise Geopolitical Futures, resumindo as demandas de Moscou.
Por outro lado, o governo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, argumenta que essa crise começou com a invasão russa da península da Crimeia e a ocupação por grupos pró-russos na região de Donbass, no leste da Ucrânia, onde desde 2014 quase 14 mil pessoas morreram.
Em 2014, a Rússia anexou a península ucraniana da Crimeia
Getty Images
Essas ações levaram a sanções contra Moscou e sua crescente alienação do Ocidente. Mas por que a Rússia dá tanta importância à Ucrânia?
1. Zona de segurança
“A Rússia está seguindo essas políticas no momento porque percebe que um país que está perto de sua fronteira está se tornando uma plataforma para uma aliança militar ameaçadora. Portanto, tem a ver com a possibilidade de a Ucrânia se tornar membro da Otan e assim passar a armazenar mísseis e tropas dessa aliança”, afirmou no fim de janeiro Gerald Toal, professor de Relações Internacionais da Universidade Virginia Tech, nos EUA, à BBC News Mundo.
George Friedman, da Geopolitical Futures, lembra que o território da Ucrânia serviu como “zona tampão” para Moscou desde a época da invasão napoleônica de 1812.
“A Ucrânia é a fronteira ocidental da Rússia. Quando os russos foram atacados pelo oeste durante a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, foi o território da Ucrânia que os salvou. Inimigos tinham que percorrer mais de 1,6 mil quilômetros para chegar a Moscou. Se a Ucrânia cair nas mãos da OTAN, Moscou estaria a apenas 640 quilômetros deles. Foi a Ucrânia que salvou os russos de Napoleão. Portanto, se trata de uma zona de segurança que eles querem manter”, ressalta.
Na visão de Toal, há uma percepção por parte de Moscou de que a Rússia está sendo cercada por uma aliança inimiga, algo que gera preocupação nas grandes potências.
Ele lembra que, no início dessa crise, o vice-chanceler russo se referiu à crise dos mísseis de 1962 e que posteriormente Moscou chegou a aventar a possibilidade de implantar forças militares em Cuba e na Venezuela.
“Eles fizeram alusão a isso para enfatizar que os Estados Unidos têm sua própria Doutrina Monroe, suas próprias ansiedades sobre a presença de forças hostis perto de seu território e, nesse sentido, é um argumento válido”, diz ele.
“Mas a resposta para Moscou é que isso acontece porque a Rússia está ameaçando a Ucrânia e tomou parte de seu território. Do ponto de vista da segurança nacional da Ucrânia, eles buscam ajuda, buscam aliados contra um Estado que veem como muito perigoso e que já lhes tomou parte de seus territórios reconhecidos internacionalmente”, acrescenta.
2. Ligações históricas, religiosas e culturais
Em 12 de julho de 2021, em um longo artigo sobre as relações com a Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, denunciou que a nação vizinha estava caindo em um jogo perigoso destinado a transformá-la em uma barreira entre a Europa e a Rússia, em um trampolim contra Moscou.
Putin não se referia apenas à dimensão de segurança e geopolítica, mas sobretudo aos laços históricos, culturais e religiosos entre a Rússia e a Ucrânia, e sobre os quais escreveu extensivamente.
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GETTY IMAGES/BBC
O presidente russo relembrou, entre outras coisas, o antigo povo rus, considerado o ancestral comum de russos, bielorrussos e ucranianos, e destacou os muitos marcos da história comum para defender sua visão de que russos e ucranianos são “um só povo”.
Toal, da Universidade Virginia Tech, destaca que vários elementos que misturam história, cultura e identidade estão envolvidos nessa ideia.
“A Rússia não vê a Ucrânia como apenas mais um país. A visão dominante do nacionalismo russo é que a Ucrânia é uma nação eslava irmã e, além disso, o coração da nação russa. Essa é uma ideologia muito poderosa, que faz da Ucrânia um elemento central da identidade russa”, diz ele.
“Portanto, há sentimentos muito fortes quando a Ucrânia como nação se define em oposição à Rússia. Isso causa muita raiva e frustração na Rússia, que se sente traída por um irmão. E isso tem a ver com a incapacidade da visão dominante entre os russos de reconhecer a identidade nacional ucraniana como algo separado da Rússia”, acrescenta.
Expansão da Otan desde 1997
BBC
George Friedman, da Geopolitical Futures, descarta a importância que a Ucrânia poderia ter para a Rússia do ponto de vista cultural ou histórico e garante que a real preocupação de Moscou é geopolítica.
“Sim, os dois países compartilham uma história comum. Historicamente, a Ucrânia foi dominada e oprimida pelos russos. Durante o período soviético, eles sofreram uma grande fome, em que milhões de pessoas morreram, porque a Rússia queria exportar os grãos que produziam. A grande unidade entre o povo russo e ucraniano é um absurdo”, argumenta ele.
3. O legado de Putin
Em entrevista à BBC News Mundo em dezembro passado, Kadri Liik, analista-chefe do Conselho Europeu de Relações Exteriores especializado na Rússia, disse que, em sua opinião, a questão da Ucrânia é aquela em que as próprias emoções de Putin entram em jogo, então, às vezes, suas posições podem não parecer muito racionais.
Gerard Toal aponta haver um argumento segundo o qual Putin foi pessoalmente humilhado pelo que aconteceu com a Ucrânia durante seu mandato, quando seus esforços recorrentes para instalar líderes pró-russos em Kiev não renderam os frutos esperados.
“O argumento geral é que ele está lutando com esse problema há algum tempo, sente que é um negócio inacabado que faz parte de seu legado e precisa ser corrigido de uma vez por todas”, destaca.
“Putin acredita que o Ocidente transformou a Ucrânia em uma plataforma antirrussa e que isso é algo que ele precisa resolver”, acrescenta.
Toal, no entanto, considera arriscado analisar a crise na Ucrânia de uma perspectiva emocional.
“Muitos analistas fazem isso e penso que é uma abordagem perigosa. Quando olhamos para os argumentos emotivos da crise na Ucrânia, tendemos a reduzi-los a ideias como a de que Putin está chateado e zangado. Nós o transformamos em uma espécie de louco, que toma decisões irracionais. Isso é um erro. Essas emoções são genuínas e fazem parte da cultura geopolítica da Rússia, então qualquer líder daquele país teria que lidar com elas e decidir se afirmá-las ou deixá-las de lado”, explica.
“Acredito que as políticas de Putin têm muito a ver com sua personalidade e sua história como ex-agente da KGB (agência de inteligência da URSS) que foi treinado na era soviética e que tem um anseio particular por um Estado forte. Todas essas coisas são extremamente importantes. Um líder da geração mais jovem provavelmente abordaria essas questões de maneira diferente, mas essas emoções são genuínas e não podemos dizer que são apenas elementos da personalidade de Putin.”
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