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‘Tem tanques nas ruas, mas nada mudou’, dizem brasileiros que vivem perto da fronteira russo-ucraniana

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Apesar do balé diplomático dos últimos dias e do início da retirada das tropas russas da fronteira com a Ucrânia, a comunidade internacional ainda teme um conflito na região. Imagem de satélite divulgada pela Maxar Technologies mostra uma visão geral das tropas e equipamentos na área de treinamento de Kursk, na Rússia, em 14 de fevereiro de 2022.
AFP / Satellite IMAGE ©2022 Maxar Technologies
Quem viajou de trem nos últimos dois dias entre o leste da Rússia e a capital Moscou certamente cruzou comboios ferroviários transportando tanques de guerra e milhares de soldados. Os cortejos geralmente são fotografados e filmados pela população, que parece admirar, com orgulho, esse inesperado desfile bélico durante a viagem. 
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Desde que Vladimir Putin anunciou, na terça-feira (15), a retirada das tropas que estavam posicionadas perto da Ucrânia, esse movimento de militares deixando a fronteira com o país vizinho é constante, como a reportagem pôde constatar em pelo menos dois pontos do trajeto.
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Porém, o comunicado divulgado nesta sexta-feira (18) pelo Ministério russo da Defesa coloca novamente uma pulga atrás da orelha da comunidade internacional.
Segundo Moscou, “em 19 de fevereiro, sob a direção de Vladimir Putin, o comandante supremo das forças armadas russas, um exercício planificado das forças de dissuasão estratégica será organizado”. A operação envolve soldados no sul do país, forças aéreas, e frotas do Norte e do Mar Negro.
Ainda nesta sexta-feira, o líder dos separatistas pró-Rússia de Lugansk, no leste da Ucrânia, ordenou a retirada de civis para a vizinha Rússia. Os insurgentes acusam Kiev de planejar uma invasão. “Para evitar baixas entre civis, peço aos habitantes da ‘República’ (…) que partam o mais rápido possível para o território da Federação Russa”, disse Leonid Passetchnik, em comunicado à imprensa.
Uma vida normal
Apesar dessa movimentação dos dois lados da fronteira, na Rússia, a população leva uma vida praticamente normal.
“Teve um aumento de tanques e carros com canhões passando pelas ruas”, comenta a estudante carioca Georgia Coimbra, mostrando no telefone os vídeos que filmou nas avenidas de Kursk, onde faz faculdade de Medicina. “O movimento [de militares] foi maior que o normal. Mas tirando isso, nada mudou”, diz ela.
Kursk possui uma importante atividade militar, com bases nas suas redondezas e até dentro da cidade. Não é raro cruzar soldados pelas ruas, quase sempre usando trajes camuflados e seus impressionantes chapéus com peles que ajudam a enfrentar o rigoroso inverno da região.
Mas a relação da cidade com a atividade militar não é do hoje. Kursk é conhecida por ter dado o nome à maior batalha de tanques da história, quando as forças soviéticas enfrentaram os alemães em 1943, em um dos episódios que marcaram a Segunda Guerra Mundial.
Essa memória é preservada e bastante valorizada. A cidade ainda mantém seus bunkers e construções em memória a esse período. Em uma alameda, situada ao lado de um cemitério, as datas da guerra são lembradas, enquanto em uma das avenidas tanques e canhões ficam alinhados diante de um monumento em homenagem ao soldado desconhecido.
Mas Kursk também fica a cerca de 100 quilômetros de distância da fronteira com a Ucrânia, o que em tempos de tensões entre os dois países poderia dar aos moradores a sensação de estar no camarote de um possível conflito iminente. Porém, conversando com alguns brasileiros que moram na cidade, a impressão é de que se trata de uma preocupação vinda de fora.
“Muita gente do Brasil me pergunta sobre [essas tensões]. Amigos e até pessoas que nem são tão próximas, mas que sabem que eu moro aqui, me perguntam como está a situação”, conta Rodrigo Carvalho, outro estudante brasileiro em Kursk. “Mas eu sempre digo: não está acontecendo nada demais. As pessoas que estão lá [no Brasil] estão mais preocupadas que a gente”, pondera o brasiliense.
Preocupação das famílias no Brasil
Os familiares acompanham a situação de longe, muitas vezes imaginando o pior. “Minha mãe me fez mandar um e-mail para a Embaixada brasileira, com meus dados. Ela disse: qualquer coisa, você sai correndo daí, do jeito que der”, conta Georgia.
Mesmo tom do lado de Leopoldo Nascimento, universitário originário do interior de São Paulo. “A maior parte dos comentários vem de famílias e amigos mesmo. Minha irmã, que mora na França, por exemplo, já chegou a mandar caixas de comida pronta para estocar em caso de guerra. Mas nós mesmos não tivemos uma mudança de rotina devido aos [potenciais] conflitos”, relata.
Ele lembra que em 2018 – quando a guarda costeira russa interceptou três navios ucranianos no estreito de Kertch, que separa o mar de Azov do Mar Negro –, chegou a receber algumas explicações da parte das autoridades brasileiras.
“A Embaixada explicou que em caso de algum tipo de invasão, eles iriam nos notificar e nós teríamos um prazo de uma hora para reunir nossos pertences e nos prepararmos para sair daqui por meio de um suporte que seria dado pela Embaixada. Mas, desta vez, nenhuma informação desse tipo foi dada”, avalia.
O discurso dos brasileiros ouvidos durante a reportagem corresponde ao clima sentido pelas ruas da Kursk, onde não há nenhum tipo de tensão aparente. No entanto, não é raro ouvir o barulho de caças de guerra sobrevoando a região. Uma trilha sonora que não parece preocupar os moradores, habituados com a essa atividade militar que já faz parte da história do leste da Rússia.  

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