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Operação de bandeira falsa: o que é a artimanha para incriminar inimigos que os EUA dizem que os russos vão usar na Ucrânia

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Nome foi tirado de um conceito naval: um barco usa uma bandeira de um país que não é o seu para transitar no mar. Operação deste tipo foi usada por nazistas no início da Segunda Guerra Mundial. Navio russo no Mar Negro durante exercício militar em 12 de fevereiro de 2022
Cortesia/Ministério da Defesa da Rússia
Mesmo depois do anúncio da Rússia de que estava retirando suas tropas das regiões próximas da fronteira com a Ucrânia, o presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, afirmou que havia risco de uma invasão por parte dos russos, e que ele recebeu informações sobre uma possível operação de bandeira falsa -ou seja, que os russos poderiam inventar um ataque falso que servisse como uma justificativa para suas operações.
Os EUA têm feito esse comentário desde o começo do ano.
Uma operação clássica de bandeira falsa é aquela em que o autor da agressão se veste como seu inimigo para criar a impressão de que o inimigo cometeu uma atrocidade.
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Esse tipo de tática foi nomeada como bandeira falsa por sua semelhança com uma manobra naval, na qual um barco usa uma bandeira de um país que não é o seu para enganar os inimigos e ganhar espaço.
Esse tipo de ação foi comum nos anos de Guerra Fria, de acordo com um texto de Calder Walton, diretor assistente do Projeto de História Aplicada de Harvard.
“Em 1968, o governo do Rússia usou o serviço de inteligência soviético, a KGB, para criar incidentes que justificassem a intervenção na Tchecoslováquia, onde o então líder Alexander Dubcek tentava abrir o país a reformas sociais-democratas para criar um ‘socialismo de face humana’. O apoio espontâneo e popular chegaram a um auge em maio, e em uma parada algumas pessoas levaram placas em que se lia ‘Vida Longa à URSS – às custas dela mesma’. No governo russo, as reformas de Dubcek pareciam ameaçar a estrutura de todo o bloco soviético na época. Documentos da KGB que já foram sigilosos revelaram que o líder da época, Leonid Brezhnev, e o chefe da KGB, Yuri Andropov, usaram pessoas ‘ilegais’ da KGB para fabricar incidentes que justificassem enviar o Exército Vermelho, acabar com as reformas de Dubcek e impor à Tchecoeslováquia um líder ligado aos sovieticos.”
Os “ilegais” eram homens da KGB que não eram formalmente ligados à agência, mas operavam de forma coordenada. Eles também plantavam histórias na imprensa para tentar manchar a reputação dos líderes da Tchecoslováquia.
Segundo o autor, os soviéticos também fizeram operações de bandeira falsa na Hungria, em 1956, e no Afeganistão, em 1979.
Evidentemente, os soviéticos não são os únicos que usam esse tipo de artimanha.
O Incidente de Gleiwitz
Um exemplo clássico de operação de bandeira falsa marcou o início da Segunda Guerra Mundial. Em 1939, Hitler planejava invadir a Polônia. Mas, para conquistar apoio, precisava de uma razão sólida que justificasse a ação. Passou então a espalhar falsa propaganda sobre violentas agressões a alemães em cidades polonesas e, sob a coordenação de Heinrich Himmler, chefe da SS (espécie de tropa de choque do Partido Nazista) implementou a Operação Himmler: uma série de falsos ataques em pontos da fronteira entre os dois países, nos quais instalações alemãs seriam alvos.
Franciszek Honiok foi a primeira vítima fatal da II Guerra Mundial
Muzeum w Gliwicach
Um dos pontos escolhidos foi a torre de transmissão de rádio de Gleiwitz, como explica o historiador Kamil Kartasinski, do Museu de Gliwice (atual nome da cidade): “Para tornar essas ações públicas no mundo todo, um dos ataques foi à estação de rádio na fronteira alemã, que durante o dia cobria toda a área da Alta Silésia (região então alemã, hoje ocupada por cidades da Polônia e República Tcheca), e que durante a noite alcançava áreas muito mais distantes. Ela foi a mais importante da Operação Himmler porque tinha como alvo uma rádio, que na época era a mídia das massas”.
Para que o ataque parecesse real, os funcionários foram pegos de surpresa por sete rebeldes “silesianos” durante a invasão – na verdade alemães usando uniformes do país vizinho. E, um destes, que sabia falar o idioma, anunciou no ar: “Uwage! Tu Gliwice. Rozglosnia znajduje sie w rekach Polskich” (Atenção! Aqui é Gliwice. A estação de transmissão está em mãos polonesas). A mensagem original, muito mais longa, não pode ser transmitida porque, por um erro de planejamento, eles entraram no prédio onde ficava apenas o setor técnico da rádio, e não seus microfones e estúdios.
Em suas casas, alemães e poloneses não entenderam muito bem o que estava acontecendo e, segundo Kartasinski, não deram a atenção que seus autores achavam que tinham conseguido atrair.
“Ninguém podia acreditar que o ataque foi realizado pelos poloneses. A maioria dos residentes de Gliwice tratou as provocações com descrença (sem saber o que pensar sobre isso) e não deu muita importância”, explica o historiador.
O prédio da torre de transmissão da rádio Gleiwtiz, invadido em 31 de agosto de 1939 no Incidente de Gleiwitz
Muzeum w Gliwicach
Ainda assim, acreditando que o golpe tinha sido bem-sucedido, os soldados acrescentaram um dramático toque final à cena: um corpo polonês. Este, porém, de verdade. Franciszek Honiok, drogado na prisão e arrastado inconsciente até o local, levou um tiro na cabeça e foi deixado no prédio, vestindo um uniforme polonês. Ele seria a “prova” da tentativa de invasão com a qual ninguém se importou.
Mal executada ou não, a operação foi reportada a Berlim, que a anunciou, ao lado das outras falsas invasões e ataques na fronteira, como uma série de provocações inaceitáveis dos poloneses, que estaria começando uma guerra contra o Terceiro Reich – apresentado como “vítima”.
Em 1º de setembro, horas depois da morte de Honiok no Incidente de Gleiwitz, a Alemanha invadia e iniciava suas ações militares na Polônia. Na sequência, França e Reino Unido declararam oficialmente guerra ao Reich e o caso da rádio foi praticamente esquecido até 1946, quando o comandante da ação, Alfred Naujocks, revelou os detalhes durante seu depoimento no tribunal de Nurembergue.
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