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O comediante que faz piada com abuso sexual que sofreu na infância

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Humor de Jonny Pelham está ajudando ele e outras vítimas a se curarem. Mas nem todo mundo vê dessa forma. Humor de Jonny Pelham está ajudando ele e outras vítimas a se curarem. Mas nem todo mundo vê dessa forma
BBC
Quando o comediante britânico Jonny Pelham disse ao seu analista que estava pensando em experimentar um material novo sobre como ele foi abusado sexualmente aos oito anos por um ex-amigo de seus pais, o profissional o desaconselhou.
“Por quê?”, perguntou Pelham, então com vinte e poucos anos. “Você acha que vai ser muito traumático, vai me atrapalhar?”
“Não”, veio a resposta. “Só não parece muito engraçado.”
Encarando isso como um desafio, o artista começou a se abrir para seu público (e seus pais) pela primeira vez sobre suas experiências traumáticas de infância, que ocorreram ao longo de um período de dois anos.
A história serviu de pano de fundo para seu aclamado show de stand up Off Limits, apresentado em 2019 no festival Fringe, em Edimburgo. Logo depois, ele chegou às salas de estar de todo o país, através do programa Live at the Apollo da BBC.
Pelham brincou que assistir ao programa seria uma maneira e tanto de seus pais descobrirem a verdade.
‘Tentando estar mais presente’
Antes do início de sua turnê de estreia no Reino Unido, adiada pela Covid-19, Pelham disse à BBC News que há “tanta vergonha, repulsa e medo” em torno do assunto de abuso sexual infantil que “realmente não sabemos como falar sobre isso”.
Ele acredita que a comédia pode ser usada como uma forma de ajudar as pessoas a se curarem.
“Eu naturalmente escrevo coisas autobiográficas e acho apenas que era isso que estava acontecendo na minha vida”, explica o jovem de 30 anos.
“Não foi [que eu] particularmente decidi escrever um programa político, eu estava tentando fazer um monte de coisas — estava tentando entrar no meu primeiro relacionamento, estava tentando ser mais presente na minha própria vida, estava fazendo terapia.”
“Eram assuntos sobre os quais eu estava falando, e a única maneira de o público entendê-los realmente era falar sobre o motivo pelo qual tudo isso estava acontecendo.”
Enquanto em anos anteriores suas apresentações de stand up se concentravam em sua vida amorosa infeliz, em Off Limits, Pelham aborda o tema tabu de seu abuso de maneira irreverente.
O jornal britânico “Guardian” deu quatro estrelas à sua performance em Edimburgo, dizendo: “O comediante transforma seu trauma de infância em um show caloroso e profundamente reflexivo, misturado com humor ácido”.
O Times deu a mesma pontuação, classificando a apresentação como “uma visão alegre de um tema sombrio”.
A resposta dos telespectadores, diz Pelham, foi extremamente positiva.
“Recebi muitas mensagens de outras pessoas que também passaram por experiências semelhantes, que disseram: ‘Obrigado por falar sobre isso ‘”, diz ele.
Mas alguns sugeriram que ele “não deveria brincar com esse assunto”.
Ele acha que esta é uma “opinião totalmente legítima”, mas da qual ele não compartilha.
“Pessoalmente, acho que, se não falarmos sobre o assunto, continuaremos vendo isso que está acontecendo, que é uma epidemia de abuso infantil sobre a qual todos estão muito assustados para falar”.
Não é possível saber quantas crianças sofrem abuso porque muitas vezes isso não é denunciado, de acordo com a Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), entidade da sociedade civil britânica dedicada à proteção da infância.
Mas o Instituto Nacional de Estatísticas Britânico estima que 3,1 milhões de adultos foram vítimas de abuso sexual antes dos 16 anos no Reino Unido.
Esta semana, o Inquérito Independente sobre Abuso Sexual Infantil na Inglaterra e no País de Gales (IICSA) publicou 50 relatos que vítimas e sobreviventes compartilharam com seu Projeto da Verdade.
Uma porta-voz do projeto disse que “aqueles que se apresentaram descreveram suas esperanças para uma sociedade onde não tenham medo de falar sobre suas experiências e enfatizaram a importância de incentivar uma conversa mais aberta sobre abuso sexual”.
E tudo bem fazer piadas sobre abuso?
Duncan Craig, fundador da Survivors Manchester, uma organização que apoia meninos e homens afetados por abuso sexual, enfatiza que “ninguém tem o direito de decidir como outra pessoa quebra seu silêncio” — seja “em uma sala de aconselhamento, em um tribunal, em uma galeria de arte através da expressão criativa, ou no palco como ator ou comediante”.
Ele acrescenta: “Como todos os outros sobreviventes, Jonny carregou o segredo com ele por anos, então como ele se livra desse fardo depende inteiramente dele”.
Mas Tania Woodgate, executiva-chefe da The Male Survivors Partnership, diz que, embora sua organização “reconheça que cada pessoa terá sua própria maneira individual de falar sobre sua experiência, e Jonny não é diferente”, ela não vê o lado engraçado da apresentação do humorista.
“Nós concordamos muito com o comentário de Jonny de que precisamos encontrar novas maneiras de falar sobre isso e que ser sério não deve ser o único caminho a seguir”, diz ela.
“No entanto, não estou convencida de que fazer piadas sobre abuso sexual infantil seja o caminho a seguir. Tendo trabalhado com vítimas de abuso por muitos anos, eu realmente tenho dificuldade para achar as piadas de Jonny divertidas.”
Isso tudo acontece em meio a um debate mais amplo sobre o que é aceitável no humor.
Recentemente, comediantes como Jimmy Carr e Dave Chappelle testaram controversamente os limites da comédia, em direções e circunstâncias muito diferentes de Pelham.
Carr causou polêmica após fazer piadas sobre o Holocausto em um especial na Netflix e Chappelle foi acusado de transfobia após afirmar que “o gênero é um fato” e que pessoas LGBT são “sensíveis demais”, também em um programa do mesmo serviço de streaming.
No ano passado, a rede de televisão britânica Channel 4 pediu a Pelham que se aprofundasse um pouco mais no assunto do abuso sexual infantil.
Em um documentário, o comediante falou com um homem que estava fazendo terapia como um “pedófilo não ofensivo” — alguém que é sexualmente atraído por crianças, mas jurou nunca agir com relação a isso — e uma mulher que estava comprometida em identificar potenciais abusadores de crianças na internet.
Ele também conheceu Ian Ackley, que falou sobre seu agressor, o notório pedófilo e técnico de futebol Barry Bennell.
Ackley elogiou Pelham no programa, observando como seu tipo de humor permitia que as pessoas ouvissem coisas que normalmente não gostariam de ouvir.
“Permitir que as pessoas riam e vejam o lado engraçado — as piadas ou o ridículo dessas coisas — dá a elas permissão para não se sentirem constrangidas”, disse Ackley.
A dupla concordou que parte do problema para as pessoas que se abrem para outras é que “você tem que administrar a resposta delas”.
Pelham diz: “As pessoas muitas vezes ficam assustadas ou sentem pena de você, e tudo o que elas sentem é completamente legítimo.”
“Então, às vezes você pensa, eu prefiro apenas conversar sobre futebol ou qualquer outra coisa, em vez de mergulhar na profundidade disso.”
‘Não precisa definir a vida’
Pelham, que começou a fazer stand up enquanto estava na universidade em Newcastle, agora mora com sua namorada em Manchester.
Durante os lockdowns em meio à pandemia, ele tentou fazer alguns shows online. “Não eram para mim”, diz ele, observando a falta de “adrenalina e emoção”.
Então, em vez disso, ele tem se concentrado em escrever roteiros de comédia para vários novos projetos televisivos.
Late Bloomer, programa de 2018 do canal britânico Sky Comedy que ele escreveu e estrelou, contou a história semi-autobiográfica de um virgem de 28 anos “com mais mamilos do que o necessário, dedos dos pês unidos, lábio leporino e um buraco no céu da boca”.
Seguiu-se o seriado Brad Boyz do Channel 4, que explorou sua experiência de crescer em Bradford como o único garoto branco de sua gangue.
Ele diz que está em um bom momento em sua vida agora e espera que sua turnê possa ajudar a mudar as narrativas “incansavelmente sombrias” em torno das vítimas de abuso sexual infantil.
“O único momento em que falamos sobre isso na grande mídia é quando alguém assassinou sua família e, na verdade, ele foi abusado quando criança”, diz Pelham.
“Eu nunca quero ser leviano sobre abuso — porque é uma coisa muito séria — mas quero dizer que há maneiras diferentes de discutir isso.”
“Minha maneira de falar é apenas dizer que isso pode acontecer com você e é obviamente uma coisa incrivelmente prejudicial, mas não precisa definir completamente sua vida”.
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