Em disputa polarizada, Chile define neste domingo seu próximo presidente

em-disputa-polarizada,-chile-define-neste-domingo-seu-proximo-presidente
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp



Mais de 15 milhões de chilenos podem votar para escolher o sucessor de Sebastián Piñera. No primeiro turno, a participação do eleitorado foi de 47%.
Gabriel Boric (Convergência Social) e José Antonio Kast (Partido Republicano) são favoritos ao 2º turno no Chile
Martin Bernetti e Javier Torres/ AFP Photo
O ultradireitista José Antonio Kast e o esquerdista Gabriel Boric se enfrentam neste domingo (19) no segundo turno da polarizada disputa pela presidência do Chile. Trata-se da primeira eleição presidencial desde que o país foi abalado pelos protestos generalizados contra a desigualdade que renderam meses de marchas e episódios de violência nas ruas, dois anos atrás.
“É uma eleição muito incerta em um ano muito anormal, são dois anos muito anormais a partir dos tumultos sociais, nada é previsível”, opina Kenneth Bunker, diretor da consultoria Tresquintos.
A disputa divide os chilenos entre uma esquerda progressista revitalizada, que cresceu muito desde os protestos de 2019, e um contramovimento de extrema-direita que avaliza a mensagem dura de “lei e ordem” de Kast.
Mais de 15 milhões de chilenos podem votar para escolher o sucessor do conservador Sebastián Piñera. No entanto, no primeiro turno, a participação do eleitorado foi de 47%.
Segundo uma pesquisa da consultoria AtlasIntel a que a agência Reuters teve acesso nesta quinta-feira, Kast, que levou uma maioria parcial no primeiro turno em 21 de novembro, tem 48,5% das intenções de votos, à frente de Boric, com 48,4%. Quando votos não válidos são retirados da conta, cada candidato fica com 50%, ou seja, há um empate.
Leia também
Kast vs. Boric: as principais propostas dos rivais mais antagônicos que o Chile teve nas últimas décadas
Sandra Cohen: Impopularidade de Piñera facilitou a ascensão do ultradireitista Kast no Chile
Sandra Cohen: Moderados vão decidir entre dois modelos antagônicos de governo no Chile
Boric, de 35 anos e formado em Direito na Universidade do Chile, vem do extremo sul do país, de Punta Arenas. É agnóstico, solteiro e sem filhos. Kast, de 55, também é advogado, mas estudou na Universidade Católica. É casado desde 1991 com María Pía Adriasola, tem nove filhos e pertence ao movimento católico Schönstatt.
Com a idade mínima para se candidatar, Boric representa a coalizão Aprovo Dignidade, que reúne a Frente ampla – da qual o candidato faz parte – e o Partido Comunista.
Kast, do ultraconservador Partido Republicano – fundado por ele – venceu o primeiro turno em 21 de novembro e conseguiu alinhar em torno de seu nome todos os partido da direita chilena.
Candidatos Gabriel Boric (esquerda) e José Antonio Kast (direita) antes do debate eleitoral
Reuters/Elvis Gonzalez
Propostas e desafios
Tanto Boric quanto Kast têm implementado mudanças em seus planos de governo desde que passaram para o segundo turno. Kast, advogado e ex-parlamentar filiado ao Partido Republicano, mantém sua ideia de construção de uma vala nas fronteiras ao norte do Chile. Segundo ele, como informa a RFI, esta seria uma solução eficaz contra a entrada de imigrantes irregulares que chegam a partir das fronteiras com Peru e com a Bolívia.
O candidato republicano retirou do seu programa de governo dois pontos bastante criticados pela opinião pública: a construção de novas termelétricas e a eliminação do Ministério da Mulher e Equidade de Gênero. Além disso, o direitista adicionou alguns pontos, como o tema ambiental, vagamente mencionado anteriormente, mas que continua com poucos detalhes.
O programa de Boric segue centrado em três reformas que ele considera essenciais: previdência, saúde e educação. Há mais três temáticas que permeiam a maioria das propostas: feminismo, crise climática e trabalho digno. O esquedista também adicionou elementos mais moderados ao seu programa, como por exemplo uma reforma tributária, que deve ser capaz de arrecadar o equivalente a 6% do PIB nos quatro anos de governo e com o objetivo de chegar a 8% em oito anos.
Quem quer que vença o segundo turno enfrentará um cenário econômico complexo: após a vigorosa recuperação de 2021, prevê-se uma desaceleração do crescimento e um aumento da dívida pública chilena no próximo ano.
Kast e Boric representam projetos antagônicos na economia.
Enquanto o jovem deputado de esquerda é liberal em temas sociais e defende “um Estado de bem-estar” ao estilo europeu na área econômica, seu adversário, um advogado de 55 anos, defende o modelo econômico neoliberal e tem uma visão ultraconservadora em temas sociais, expressa em sua oposição ao aborto e ao casamento entre pessoas de mesmo sexo.
Kast propõe uma redução dos impostos às grandes empresas e manter o sistema de pensões privado. Boric planeja uma reforma tributária que inclua maior taxação dos super-ricos e à alta renda para arrecadar 5% adicionais do PIB, que se destinaria a ampliar a participação do Estado na provisão de seguridade social.
O candidato de esquerda é favorável a um novo sistema de pensões que substitua o herdado da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), um tema central na sociedade chilena e que tem sido uma das principais reivindicações dos protestos sociais nos últimos anos, pelas baixíssimas aposentadorias que pagam.
“O modelo de Kast é mais amigável com o mercado”, enquanto Boric tem “uma grande desconfiança com o setor privado”, diz o economista da Escola de Negócios da Universidade Maior, Francisco Castañeda.
Na reta final para o segundo turno, os dois candidatos moderaram seus discursos, sobretudo no âmbito econômico, integrando novos assessores a suas equipes, em busca de atrair eleitores do centro.
De fato, economistas renomados que acompanharam os anos dos governos da Concertação de partidos de centro-esquerda após a ditadura, marcados por grande prosperidade, declararam apoio a Boric no segundo turno, entre eles Ricardo French-Davis.
Inicialmente, Boric propunha uma reforma fiscal que arrecadaria 8% do PIB e agora quer 5%, enquanto Kast introduziu gradualidade a seu alívio de 27% a 17% do imposto às grandes empresas.
Após registrar uma queda de 5,8% em 2020 em consequência das restrições sanitárias motivadas pela pandemia, o Chile terminará 2021 com uma expansão do PIB em torno de 11,5%.
Eleição presidencial no Chile chega à reta final com incertezas; Ariel Palácios comenta
Boa parte desta recuperação se deve ao forte aumento do consumo privado, após os bônus estatais pagos pela pandemia e os três saques antecipados dos fundos privados de pensões (de até 10% de cada vez), aprovados pelo Congresso devido à forte pressão popular.
Além disso, desde meados do ano foram retomadas em grande parte as atividades econômicas depois que uma campanha de vacinação anticovid bem sucedida, impulsionada pelo governo do Sebastián Piñera, conseguiu alcançar mais de 90% da população-alvo.
Como primeiro produtor mundial de cobre, o Chile se beneficiou também da alta internacional do metal, puxada pela demanda chinesa.
Apenas os saques dos fundos de pensões representaram uma injeção de US$ 50 bilhões, enquanto o governo destinou até dezembro 3 bilhões de dólares mensais para pagar o bônus Renda Familiar de Emergência (IFE, na sigla em espanhol).
Para 2022, espera-se que o Banco Central volte a aumentar as taxas de juros para conter a inflação, que encerrará o ano em torno de 6%, o dobro de sua meta. Além disso, a entrega dos IFE será suspensa.
Qualquer que seja “o candidato que chegar à Presidência no ano que vem, terá que se encarregar de um cenário macroeconômico complexo, no qual terá que calibrar a retirada do estímulo fiscal”, acrescentou Ortiz.
Conscientes deste cenário, Boric e Kast se comprometeram a garantir a consolidação das contas fiscais para conter a dívida pública, que em junho de 2021 chegava a 33,1% do PIB.
“Existe uma consciência clara de que sem disciplina fiscal, a economia chilena enfrentaria tempos mais difíceis do que os projetados para 2022”, diz Castañeda.
Uma vitória de Kast seria mais valorizada pelo mercado, mas há o temor de que suas políticas provoquem protestos. Se o vencedor for Boric – que lidera as pesquisas, proibidas desde 4 de dezembro -, a incerteza econômica poderia se espalhar especialmente devido ao seu projeto de reforma tributária, embora haveria um relativo alívio nas ruas.
Veja os vídeos mais assistidos

MAIS NOTÍCIAS

PUBLICIDADE

Rolar para cima