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Eleitor moderado decidirá vencedor do segundo turno das eleiçoes presidenciais no Chile

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Os dois candidatos que disputam o cargo representam ideias opostas: Gabriel Boric, de esquerda, e José Antonio Kast, de extrema direita, disputam os votos em um processo eleitoral marcado pela polarização. Gabriel Boric e José Antonio Kast antes do último debate presidencial no Chile
Elvis Gonzalez / AFP
Milhares de chilenos voltam às urnas neste domingo (19) para escolher seu novo presidente, no segundo turno das eleições presidenciais. Os dois candidatos que disputam o cargo representam ideias opostas: Gabriel Boric, de esquerda, e José Antonio Kast, de extrema direita, disputam os votos em um processo eleitoral marcado pela polarização.
Quem chegar ao Palácio de La Moneda governará um país com uma nova constituição, em pleno processo de elaboração e marcado pela inflação crescente nos últimos dois anos, decorrente dos protestos sociais de 2019 e da pandemia da Covid-19. Gabriel Boric (Convergência Social), 35 anos, e José Antonio Kast (Partido Republicano), 55 anos, brigam por cada voto, desde que os resultados do primeiro turno foram oficializados.
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Confronto marca último debate antes do segundo turno no Chile
Em novembro, mais de 7,1 milhões de eleitores, de um total de 15 milhões, compareceram às urnas para o primeiro turno. Com uma pequena diferença, Kast ficou em primeiro lugar, conquistando 27,91% dos votos contabilizados, seguido por Boric, que conquistou 25,82% dos votos. Na prática, 146.755 votos separaram os dois candidatos no primeiro turno.
Desde o começo da campanha, várias pesquisas buscaram estabelecer o cenário de intenção de votos dos chilenos mas, por decisão do Serviço Eleitoral do Chile, os resultados dos últimos estudos só poderiam ter sido publicados até o último dia 4 de dezembro.
A última pesquisa Plaza Pública Cadem mostrou um cenário favorável ao candidato Gabriel Boric, que tem 40% das intenções de voto, enquanto José Antonio Kast obteve 35%. Votos brancos, nulos ou pessoas indecisas somaram 25%. Da mesma forma, a última pesquisa Pulso Ciudadano perguntou às pessoas em quem votariam no próximo domingo e as respostas revelaram que Boric conquistaria 40% da preferência dos votos e Kast teria 24%. Pessoas que responderam que votarão nulo, que não sabem, ou que não votarão, somaram 35%.
Eleição histórica
Esta é uma eleição histórica para o país porque nenhum dos candidatos conseguiu mais de 28% dos votos no primeiro turno, o que significa que ambos permanecem na disputa pelos eleitores mais moderados para obter a vitória.
Além disso, desde a redemocratização do Chile, iniciada com as eleições populares em 1989, as eleições presidenciais foram marcadas pela máxima de que o candidato vencedor do primeiro turno se consolidava como o vencedor do segundo turno. A tradição poderá mudar pela primeira vez em 32 anos.
O segundo turno foi marcado pelos inúmeros compromissos, reuniões e comícios dos candidatos e apenas dois debates contaram com a presença de Boric e Kast: um realizado dia 10, pela Associação de Radiodifusores do Chile (Archi); e outro dia 13, organizado pela Associação Nacional de Televisão (Anatel).
O clima morno marcou o último encontro. Apesar da troca de farpas habitual e das constantes interrupções de ambos, o debate foi mais ameno do que os anteriores. Um dos momentos mais tensos foi quando Kast sugeriu que os dois fizessem exames para detectar o uso de drogas. Boric respondeu mostrando seu exame realizado em novembro e disse: “Eu sabia que você ia falar disso novamente, então já trouxe o resultado, porque não quero fazer parte de um show”.
Mudanças nos planos de governo
Tanto Boric quanto Kast têm implementado mudanças em seus planos de governo desde que passaram para o segundo turno. Kast, advogado e ex-parlamentar filiado ao Partido Republicano, mantém sua ideia de construção de uma vala nas fronteiras ao norte do Chile. Segundo ele, esta seria uma solução eficaz contra a entrada de imigrantes irregulares que entram no país a partir das fronteiras com Peru e com a Bolívia.
“O que acontece é que nós, no Chile, temos uma taxa de imigração mais alta do que a da Colômbia, por exemplo, que está ao lado. Porque nossa quantidade de habitantes é muito mais baixa do que a da Colômbia”, disse José Antonio Kast em entrevista ao canal local 24 horas. Somente de janeiro de 2018 a janeiro de 2021, mais de 35.400 imigrantes chegaram ao país de maneira irregular, o que representa 79% do total de imigrantes que chegaram ao Chile desde 2010, segundo os dados do Serviço Jesuíta a Migrantes e da Polícia de Investigações (PDI).
Eliminação do Ministério da Mulher
O candidato republicano retirou do seu programa de governo dois pontos bastante criticados pela opinião pública nos últimos dois meses: a construção de novas termelétricas e a eliminação do Ministério da Mulher e Equidade de Gênero. Além disso, Kast aproveitou os ajustes no programa para adicionar alguns pontos, como o tema ambiental, vagamente mencionado anteriormente, mas que continua com poucos detalhes.
Questionado se a presença de José Antonio Kast no segundo turno representa um crescimento da extrema direita no cenário político chileno, o professor do Instituto de Assuntos Públicos da Universidade do Chile, Robert Funk ressalta que esse setor sempre esteve presente. “Devemos nos lembrar que, no plebiscito de 1988, os apoiadores de Pinochet foram 45%”, diz. “Posteriormente, a direita nunca teve menos de 30% ou 35% dos votos nas eleições. Parte disso sempre foi devido aos votos dos extremos, de pinochetistas. O que é novo no caso de Kast é que ele combina esse pinochetismo e a direita tradicional chilena com essa nova direita, que vemos pelo resto do mundo, que é essa direita nacionalista e populista”, lembra o especialista.
De acordo com Funk, “Kast tem adotado algumas posturas parecidas com as de Trump e de Bolsonaro em temas como imigração, vacinação, mudanças climáticas, etc. Isso é uma novidade. Na minha opinião, não acredito que a direita tenha crescido no Chile mas, de outro lado, está claro que há um certo cansaço político no país. Os dois últimos anos foram muito tensos, entre protestos e pandemia, e alguém que promete restaurar a ordem […] provavelmente se sairia bem”, explica o doutor em Ciências Políticas pela London School of Economics and Political Science.
Reformas urgentes
O programa de governo reformulado do ex-líder estudantil Gabriel Boric continua centrado em três reformas que ele considera essenciais e urgentes: previdência, saúde e educação. Há mais três temáticas que permeiam a maioria das propostas: feminismo, crise climática e trabalho digno. Boric também adicionou elementos mais moderados ao seu programa, como por exemplo uma reforma tributária, que deve ser capaz de arrecadar o equivalente a 6% do PIB nos quatro anos de governo e com o objetivo de chegar a 8% em oito anos.
Uma das propostas de Boric é garantir uma previdência mensal mínima para aposentados e pensionistas acima de $250 mil pesos chilenos, o equivalente a cerca de R$1.660. Essa reforma seria um duro golpe ao atual sistema previdenciário do Chile, que funciona como o que conhecemos no Brasil como previdência privada. O candidato prevê a eliminação total das AFP (Administradoras de Fundo de Pensões), uma herança da ditadura de Pinochet, e a migração dos contribuintes que desejarem para um sistema com financiamento híbrido, ou seja, parte dos recursos é oriundo do Governo e a outra parte vem das contribuições individuais de cada trabalhador.
Empregos femininos
Uma das metas do programa do candidato de esquerda é recuperar 500 mil empregos femininos perdidos durante a pandemia. De acordo com os dados do relatório Women in Work Index 2021, o Chile é o país que mostrou maior queda de empregos femininos em 2020, retrocedendo 13% e ficando na posição 31 dentre as 33 nações que compunham a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) na época da realização do estudo. Hoje, a OCDE abrange 38 países e, da América Latina, apenas Chile, Costa Rica, México e Colômbia fazem parte. O relatório indica que o mercado laboral para mulheres no Chile poderá chegar aos níveis de 2017 até o final deste ano.
Os pactos para alcançar o eleitor de centro
Diante do debate de ideias, os candidatos buscam conquistar o eleitor de centro, especificamente aqueles que votaram em candidatos mais moderados no primeiro turno: Yasna Provoste (Partido Democrata Cristão), Marco Enríquez-Ominami (Partido Progressista) e Sebastián Sichel (independente).
“Tanto Boric quanto Kast têm tratado de falar não somente para sua base eleitoral, mas têm ampliado sua convocatória para incorporar pontos de Yasna Provoste, de Parisi e de Sichel. Nesse sentido, parece bastante normal e razoável que ambos estejam moderando duas posições”, explica Cristóbal Bellolio, doutor em Filosofia Política pela ​​University College London e atualmente professor da Universidad Adolfo Ibáñez.
Boric fez o que foi denominado de “Acordo de Implementação Programática”, no qual adicionou as sugestões de Yasna Provoste e Marco Enríquez-Ominami ao seu programa. Segundo o comitê do candidato, foram pequenas adições, já que o programa em si não sofreu mudanças drásticas. “Dia 19 de dezembro votarei por Gabriel Boric. Temos o dever de continuar trabalhando pelo reencontro dos democratas”, disse Provoste no final de novembro. Marco Enríquez-Ominami declarou seu apoio ao candidato de esquerda pontuando que “Boric representa a esperança do não retrocesso”.
Apoio de Michelle Bachelet
A ex-presidente Michelle Bachele também declarou seu apoio ao candidato de esquerda. Ela governou o Chile por oito anos e era do Partido Socialista. Bachelet, que hoje é Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU, chegou ao país nesta semana para passar o final de ano com a família e gravou um vídeo onde declara seu voto: “Ninguém pode ficar indiferente […] (Vim) escolher um presidente que assegure que nosso país possa realmente continuar em um caminho de progresso para todos, um caminho de maior liberdade, igualdade, onde os direitos humanos sejam respeitados. Não dá no mesmo votar por qualquer um. Por isso eu vou votar em Gabriel Boric”.
Sebastián Sichel, que disputou as eleições como independente e foi apoiado pela coligação “Chile Podemos Más”, um pacto partidário de centro-direita que une quatro partidos de direita, a mesma aliança política do atual presidente Sebastián Piñera, manifestou seu apoio a José Antonio Kast. Depois de enviar aos assessores de Kast uma lista com pontos a serem adicionados ao programa do republicano, o ex-candidato disse em um comunicado: “Me falaram que têm absoluta disposição em incluir e reforçar seu programa com os compromissos e os pontos que enviamos”.
Campanha online
Kast manifestou interesse em conquistar os eleitores do candidato Franco Parisi, considerado por muitos especialistas como “candidato outsider”. Parisi ficou em terceiro lugar, obtendo o apoio de 12,81% dos eleitores que votaram no primeiro turno (900.064 votos). O candidato republicano participou de uma transmissão ao vivo nas redes sociais de Parisi na qual falou sobre vários temas como redução do orçamento parlamentário, aposentadoria, lei de posse responsável de animais e casamento gay.
Vale relembrar que o ex-candidato Franco Parisi (independente), considerado populista, vive hoje nos Estados Unidos, no estado do Alabama, e desenvolveu sua campanha totalmente de forma online. Ele enfrenta uma ação judicial pelo não pagamento da pensão alimentícia dos dois filhos que moram no Chile. A dívida acumulada é de $250 milhões de pesos chilenos (cerca de R$ 1,6 milhão) e por isso não poderia viajar ao Chile e retornar aos Estados Unidos, onde mora há três anos.
Na semana passada, Boric informou que não compareceria ao programa online de Parisi argumentando ser “inaceitável” a dívida por pensão alimentícia que o ex-candidato mantém com seus filhos: “Sei que eleitoralmente seria vantajoso, mas uma pessoa precisa se guiar por seus princípios”.
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